Quer você queira, quer não, as pessoas sempre fazem referência às outras ou com a descrição do cargo profissional ou com posição social ou por sua aparência física.
- Lembra da Joana?, diz fulano com tom indagador.
- Joana? Joaaaana…. . Continua cicrano com a mão no queixo e olhando para o céu.
- Aquela que trabalhou com a gente na Quitanda do Seu Zé. Insiste fulano
- Era aquela que trabalhava no caixa? Enfatiza cicrano.
- Nãããão! Era aquela gordinha de cabelo rosa que trabalhava no setor de guloseimas.
(Os dois riem sem parar)
Pois é. Não cabe a você mudar o curso das conversas, não é mesmo? Acredito que desde que o mundo é mundo, a referência pela aparência costuma ser fundamental nos diálogos sociais, sejam provocativos ou só informativos. Mas, me diga uma coisa, quem é que gosta de ser lembrada como “a gordinha” ou “o gordinho”? (Quem respondeu sim, por favor, me conte suas razões na sessão de comentários deste post).
Há três anos passei de uma menina que usava 42 e pesava 68kg, para uma gorda que usa 46 na Hering, XL na Zara, 48 na Renner e Marisa, GGG na Camiseteria, XL na Threadless e sem numeração da C&A. Ah, é claro, pesando singelos 88kg!
A trajetória da gorda
Estou sendo completamente honesta com vocês ao dizer que as minhas famílias, tanto de pai quanto de mãe, já possuem históricos de obesidade grau três. Ou seja, eu sempre estive em perigo. Minha mãe, como uma excelente mãe que é, me colocou na natação logo com cinco anos de idade. Calma, eu não era gorda nessa idade, mas já tinha passado por uma cirurgia de bronquite, e para que as crises não voltassem, eu tinha que fazer natação e tomar banho de água fria seja qual fosse a estação.
Com 12 anos eu competia no estilo craw, peito, e às, vezes no revezamento em eventos municipais. Aos 15, além da natação, fazia atletismo, tênis, academia e competia em estadual. Nessa mesma idade larguei tudo e fiquei só com a academia. Aos 16 mudei-me para Brasília e então, parei de fazer tudo. Afinal, na minha cidade eu pagava 40 reais pra fazer todas as modalidades, em Brasília com esse preço eu não ia nem na esquina de casa não é?!
É claro que um organismo tão acostumado com esportes desde cedo sentiria os efeitos da eliminação total de qualquer exercício, então comecei a engordar. Nada demais, no máximo uns quatro quilos facilmente perdidos quando eu corria na L2. Mas depois de alguns anos os pneuzinhos começaram a aumentar aí foi a hora de procurar um nutricionista e começar a ralação.
Os tipos de nutricionista
Se tem uma profissão que é a personificação da palavra “tédio” é a de nutricionista. Tem mais coisa entediante do que escutar o que você já leu em trocentas revistas Boa Forma e cansou de assistir no Globo Repórter? Mas quando se é gordo você tem que achar que as palavras ditas pelo seu nutricionistas são as hipérboles bem humoradas do Jerry Seinfeld.
Eu já passei por todos os tipos de nutricionistas. O pior deles com certeza é o chato e inconveniente que só sabe falar no quanto você precisa perder, como você não está cumprindo a dieta como deveria e principalmente que você tem que evitar comer em restaurantes no final de semana. Esse é o nutricionista ditador. É com esse tipo que você vai do entusiasmo à depressão profunda em segundos de consulta. PRO-FUN-DA.
Pera aí? Eu não posso sair pra curtir com os amigos? Eu tenho que ir ao cinema, mas não posso pedir pipoca? Bebida nem pensar? Só posso ir a restaurantes vegetarianos e vegan? What a hell? Como alguém sobrevive assim?
Esse tipo de nutricionista não sabe enxergar que o gordo normalmente tem prazer em comer e também não sabe enxergar que você não é nenhum Testemunha de Jeová que só sai pra igreja. Com esse nutricionista foi que eu tive a minha primeira crise de querer desistir de emagrecer e mandei o mundo pra aquele lugar. Pensei:
“Olhe, escute, a cerveja na sexta à noite é minha sessão de terapia. A comida mexicana no sábado com os amigos é a minha fonte de revigorante de energias. A lasanha de domingo com a família é o meu ponto de equilíbrio. Sem essas coisas como é que eu vou sobreviver a esse longo caminho para emagrecer?”
Então voltei a estaca zero até conhecer um outro tipo de nutricionista: o motivador. Esse é o tipo que não importa se você está gorda no formato pêra ou no formato globo terrestre, ele te olha sem te julgar. Eles possuem um diálogo aberto e otimista e, o melhor de tudo, estão sempre torcendo por você. Eles sabem que é difícil perder 22kg, mas isso não importa para eles desde que você tenha perseverança. É difícil encontrar um profissional nessa qualidade, mas ele existe.
A verdade verdadeira
Mas a verdade é que não importa o tipo de nutricionista que você ache, a única pessoa que poderá garantir o sucesso da sua dieta é você. Parece que estou falando sobre o óbvio, mas quem é gordo sabe o quanto é difícil assumirmos essa responsabilidade. Preferimos culpar nosso estresse, nossa desilusão amorosa, nossa ansiedade, nossa gula, tudo menos nós mesmos.
Tem horas que somos os principais sabotadores do nosso final feliz. E como é difícil e ruim enxergar essa verdade. Mas quem é gordo precisa primeiro admitir isso e encarar as consequências para conseguir realizar as etapas de emagrecimento com mais maturidade. Quem lê pensa que é a coisa mais fácil do mundo, mas a verdade é que exige uma autoestima muito alta e uma técnica de pensamento positivo jedi nível mestre Yoda. Mas nem tudo está perdido…
No próximo capítulo as consequências de ser gorda, incluindo a sessão crise de choro no vestiário da loja.

Oi Ana Paula! Ainda não tinha adicionado seu blog ao meu reader, agora vou poder acompanhá-lo devidamente.
É preciso muita coragem para falar desse assunto em uma sociedade onde todos aceitam que ser gordo é errado – inclusive os gordos. Inventam – sim, inventam – que emagrecer é uma questão de saúde, ou que se você é gordo é porque não se cuida, é desleixado (quando vemos tantas beldades gordelícias, incluindo a autora deste blog). Claro, pq existe toda uma indústria que se beneficia disso e que precisa que você não aceite o seu corpo do jeito que é.
Ah, tá, olha ~a magra~ falando. O lance é que mesmo eu sendo magra (nunca pesei mais que 50 kg na minha vida, e olha que isso é pouco em relação à minha altura) tbm não me adequo ao padrão de beleza estabelecida pela sociedade e por seus meios de comunicação. Quando adolescente, tinha raiva do meu corpo por não ter bunda o suficiente para encher a calça de menor numeração que encontrava nas c&a´s da vida. Claro, para quem é gordo, a vida é bem mais difícil do que uma frustraçãozinha de adolescente esquelética. É bullying para a vida toda.
A questão é que somos educadas a não estarmos satisfeitas com o que somos. Nunca. Porque oferecer o que vai nos completar gera lucro pra alguém. E também porque estabelecer essa ditadura do corpo perfeito escraviza, principalmente, as mulheres. E é a elas – a nós – que a sociedade quer manter em seu “devido lugar”.
Interessante como temos pontos em comum. Também venho de uma família onde a maioria das pessoas são obesas, também fiz natação por conta da bronquite. Depois de 13 anos de natação, dos 2 aos 15, decidi que iria fazer outro esporte. Fiz futebol e basquete, somados, por um período de 2 anos. Sendo que praticamente desde quando nasci, até meus 17 anos, eu era ativo e magro. Aos 18 fiz academia, mas desanimei rápido, fiquei só 1 ano. Pois bem, eu devia pesar por volta de 76 quilos e eu tenho 1,75 de altura, estava no peso ideal e com bom porte físico. Imediatamente após sair da academia, quando digo imediatamente quero dizer: na primeira semana, fui para 82 quilos. Sim, eu engordo mais fácil que psicotécnico pra dirigir. O problema é que eu nunca fui de comer bem, na realidade sou o que come menos da família. Se eu ficar parado meu corpo armazena triglicerídeo como investimento de longo prazo. Meu biotipo é assim, eu sou como um urso, que armazena a gordura, um corpo feito para sobreviver períodos de fome, mas que fome?… Agora eu devo estar pesando 87 quilos, me sinto pesado, cansado… Ontem mesmo já me matriculei na academia, já paguei 1 ano. Mas não espero emagrecer mais do que meu peso ideal, meu corpo não deixa. Detalhe, toda vez que eu saio de uma atividade física, se for engordar de novo, engordo muito. Parece praga de vó….