
Regra número um do manual de uma gorda: Prepare-se para enxergar o mundo inteiro como uma Olívia Palito.É a mais pura verdade. Quando se fica gordo, todo mundo parece magro, esbelto e sexy e você aquele saco de batatas podres no fundo da Quitanda do Seu Zé. Como cantava o querido James Hetfield, vocalista do Metallica: “Sad, but true”.
A perspectiva sobre a vida para um gordo resume-se a acreditar que, toda pessoa que anda de short jeans e camiseta baby look é, em comparação consigo mesmo, uma Gisele Bündchen. Não importa o tanto de espinha que a pessoa tenha, não importa o quanto o nariz dela é grande, muito menos que algumas estrias estão à mostra na parte em que a baby look não cobre. A gorda só consegue pensar na seguinte frase: “Pelo menos ela é magra e não pesa 88kg”. Again, “sad, but true”.
Regra nº2: Corra dos vestiários de lojas de departamento
Como ficar gorda não está no planejamento de nenhuma pessoa – a não ser dos atores de cinema – quando se depara com a situação, ninguém está preparado. Em todos os sentidos. Seu psicológico está atordoado, cavando várias maneiras de sabotar a sua razão e lhe levando para o lado negro da força. Nada de bom, com relação a você mesmo, sai da sua boca. E quando aquela amiga fala “Nossa que vestido lindo”, a gorda automaticamente pensa “Ela tá falando isso para não falar o quanto eu estou parecendo a versão brasileira da Molly” (do seriado Mike n’ Molly).
Se o psicológico está desse jeito, imagine o guarda-roupa? Cheio das roupinhas do alto verão, dos tempos áureos de “magreza”. As roupas mais queridas agora ganham adjetivos depreciativos. Para blusa de alcinha, leia-se “meu braço de gordo, da espessura da minha canela, à mostra”. Vestido tomara que caia, leia-se “as gorduras ao lado do seio pulando para fora do vestido abruptamente”. Calça Jeans, leia-se “divisão da barriga em dois pneus de tratores, sendo que um é edição especial blue jeans”. Conseguiu visualizar o que é o terror do psicológico agitado, com o guarda-roupa despreparado?
Pois bem, é por conta desse cenário que é inevitável que, em primeira instância de engordamento, uma gorda deve, obrigatoriamente, correr de todos os vestiário de mega stores. Isso mesmo, diga adeus à C&A, Renner, Riachuelo,Marisa, Zara, Luigi Bertolli, Hering, Siberian, Otoch e diga oi para lojas modelos plus size, Malwee, feiras de roupas (como Feira da Lua, Feira do Guará, 25 de março) e comprar na gringa.
A cena mais típica quando se contraria esta regra é a seguinte, inevitavelmente sofrida por mim. (Atenção cenas fortes para quem se encontra na fase um de gordice).
Com o guarda-roupa cheio de roupas apertadas ou que marcavam minhas “ancas largas” (by Augusto dos Anjos), precisei sair para comprar roupas para trabalhar e para o dia-a-dia que me servissem. Embora estivesse já 15kg mais gorda, a mente continuava de magra. O que me levou diretamente nas lojas que costumava ir. Já na terceira loja e ao provar a quinta calça jeans tamanho 46, que obviamente não serviu, o meu psicológico esmoreceu. Uma raiva imensa do botão que não fechou e um choro compulsivo por literalmente não ter uma roupa que me servisse. Um choro tão grande que até a atendente foi no meu vestiário dar aquele tapinha nas costas. É um choro tão doido e tão desesperador que não te dá ânimo de ver mais nada de roupa, e se pudesse você andaria para todo o sempre nua.Predomina o desejo de sumir do mapa ou de nunca ter nascido ou os dois juntos.
É nessa hora que mora o perigo, porque a autocomiseração cresce nesse ambiente psicológico. E não existe coisa pior que autocomiseração, porque ela simplesmente não te leva a lugar algum. Você não cresce com ela, nem consegue fazer uma análise sábia sobre a real situação. Como dizia Marcel Proust, temos dois tipos de sofredores: os maus e os bons. Os maus sofrem e não crescem com a dor, os bons a todo o momento estão buscando ferramentas para entender o sofrimento e crescer com eles. Ter autocomiseração só nos torna maus sofredores, estagnados no peso, na sabedoria, na tristeza e na depressão. Repito: a regra número dois do manual da gorda é fugir, correr em máxima velocidade, das lojas convencionais
Fazendo as pazes com a perseverança
Para toda regra há uma solução para adaptá-la ao seu cotidiano. Pelo menos no meu mundo é assim que funciona (por isso namorei um ano escondido dos meus pais)
. Sei que no começo pode parecer difícil e horrível tentar comprar uma roupa, porque de fato o mercado da moda é diretamente improporcional ao mundo das gordinhas. Embora tenhamos mais numeração 48 e o tamanho GG nas araras, ainda é muito difícil ser gorda e andar na moda.
Mas como dizia o efusivo Douglas Adams “DON’T PANIC”, assim mesmo “em letras garrafais”. Porque assim como um dia você está magra, no outro você está gorda e você não é a única. Na internet você encontra várias dessas pessoas que, assim como eu, escrevem sobre suas dificuldades, medos e principalmente, com orgulho de todas as curvas. Sim, é possível sentir orgulhos das nossas curvas GG.
É por isso que o meu conselho para conseguir seguir a regra número dois é: Não se encane tanto. Todo mundo é gordo um dia (alívio cômico http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/6050-famosas-com-celulites#foto-113298 ). Liberte a sua mente (mas não leia Comer, Rezar e Amar) e frequente lojas GGs, compre o quanto XL achar necessário nas lojas gringas. Não deixe sua silhueta ditar a sua autoestima. Ande de mãos dadas com a perseverança, porque é ela que vai te livrar do cabresto que te impõem que a beleza pesa até 70kg e usa no máximo tamanho 40.
“Ah! Tá. Vai dizer que você não prefere a Scarlett Johansson à Melissa McCarthy? Não prefere a noiva de Julia Roberts à noiva da Fiona?”, você deve estar pensando. Mas esse conceito de beleza é o que foi te imposto. Não estou dizendo que é fácil se achar bonita com essas medidas, mas é por isso que eu repito: “ande de mãos dadas com a perseverança”. E eu, só eu, e pessoas que passam pelo que nós passamos, sabemos o quanto é difícil se olhar no espelho sem desviar o olhar. (Um dia eu ainda conto a vocês como foi ser noiva aos 88kg).
You’re beuatiful
Você pode gastar anos em terapias, ou começar a acreditar que você tem todo o potencial do mundo de ser uma DIVA. E não aceite menos do que isso. Se você acredita que pode emagrecer e conseguir a silhueta que merece, dê as mãos para a perseverança e não desista. Mas se acha que já deu o tempo de ficar encrencando com o seu biotipo, dê as mãos para a perseverança e se assuma linda e GG. (Exceto os casos que a silhueta GG prejudiquem a sua saúde. E que fique claro que não são todos os GGs que são sinônimos de obesidade, diabetes, problemas cardiovisculares e hipertensão).
Eu, mais do que ninguém, sei o quanto é difícil se aceitar linda, chique, charmosa e elegante no GG. Fiquei meses sem me olhar no espelho. É por isso que eu, mais do que qualquer outra pessoa, posso te dizer que você é uma DIVA. Caminhe com a perseverança e cerque-se de autoestima elevada. E não desvie, em nenhum momento, o olhar de você mesma.
E para incentivar, uma das GGs mais lindas do mundo: Beth Ditto, do Gossip.

Vc tá muito radical! Os gordinhos são felizes… Mas o texto é hilário Ana, só vc!
Su, eu sou feliz!! Só que pra chegar nesse estágio eu tive que superar vários sofrimentos internos. Por isso resolvi confessar todos eles aqui e deixar registrado que, é difícil, mas não é impossível. Que bom que gostou do texto!!!
Quando você vai fazer pão de queijo pra mim denovo?!?!?!?!!
lindo, lindo, lindo texto
parte 3?
beijos.
Aline, eu fico nervosa só de saber que agora to no seu reader. É uma honra pra mim te ter como leitora. Fico extremamente feliz em saber que você tem gostado dos texto, é quase que aquele tapinha nas costas do chefe de “Bom trabalho”.
A parte três está em desenvolvimento!!
agora eu vou checar todas as lojas que tem tamanhos acima do 46. e socar os gerentes das lojas que não tiverem.
Como só um melhor amigo feito sr. Doca é capaz de fazer!
Obrigada por poder contar com você nessa saga!