Cinema com batom: as musas que transformaram a bela arte.

Dez Divas que transformaram o cinema

Por Thiago Turbay

Foi essencialmente com o silêncio que percebi o cinema feminino, não a arte etnográfica, mas a entrevisão do belo. São evidentemente suspeitosas as Divas do cinema, pois sua beleza encantadora fora dele poderia ser facilmente incorporada à película. Mas o que aquela força descomunal do belo feminino arrancara dos roteiros? Esta é uma delicada convicção: o cinema é belo e frondoso como as mulheres.

Sugiro uma volta ao tempo. Quando Anita Ekberg (Sylvia Rank) descobre um gato no beco em Roma (La Doce Vita- Fellini, 1960), está prestes a tornar imortal sua interpretação. Pouco depois, dentro da Fontana de Trevi, sua cena com Marcello Mastroianni (Marcelo) entraria para a história do cinema.

Com um gato na cabeça, Ekberg (Sylvia) sugeriu que a arte não era inerte, que há o encanto, ao ceder espaço para a interpretação. Audaciosa e intensa, a cena que seguiu provou que o cinema dependia da estética feminina.

Depois de Anita, Elizabeth Taylor (Cleópatra- Joseph L. Mankiewicz, 1963) representava uma intensa e vigorosa personagem. Cleópatra mostrava o protagonismo e sensualidade, incorporando ao roteiro de falas breves à força da sedução feminina. Liz Taylor achou uma Cleópatra que a mesma procurou ser.

Liv Ulmann estrelou dez dos grandes filmes de Ingmar Bergman, cineasta sueco diretor de “O Sétimo Selo”. Entre “Quando duas Mulheres Pecam” (Bergman, 1972) e o drama psicológico em “Saraband” (Bergman, 2003), Liv Ulmann emprestou sua agressividade em “Gritos e Sussurros” (Bergman, 1972). No filme, Liv interpretou Maria, uma virtude da beleza, severa e doce, da mulher. Maria (Liv) e a irmã Agnes (Harriet Andersson) vivem juntas a descoberta do perdão e angústia de suas vidas, na grande obra-prima do diretor. e vigorosa personagem.

Além de Liv, Ingrid Thulin realizou uma das cenas mais perturbadoras do filme, quando se fere e lambuza com sangue seu rosto. Bergman, em “Gritos e Sussurros”, ainda deu chance a dócil e amorosa Anna (Kari Sylwan), durante a deslumbrante versão de Pietá (Michelangelo, 1499), proposta pelo diretor.

O inquieto Michelangelo Antonioni foi mestre em descobrir grandes atrizes. Em “Blow-up, depois daquele beijo” (Antonioni, 1966), o nu frontal de Jane Birkin espantou os britânicos e encantou os amantes da grande arte, como àqueles que não dispensam um olhar febril sobre as mulheres.  Antonioni apresentou também a atriz Monica Vitti, atriz da trilogia: “A Aventura” (1960), “A Noite” (1961) e “O Eclipse” (1962).

Maria Schneider (O Último Tango em Paris- Bernardo Bertoluci, 1972) completa a lista de atrizes que provocaram o público e transformaram a estética do cinema pela dimensão erótica e marcação das suas interpretações existenciais e contundentes. Schneider interpretou uma jovem provocante que contracena uma novela erótica com Marlon Brando, no clássico de Bertoluci.

Como os grandes diretores, Pedro Almodóvar força um extravagante ritual cênico de beleza e exotismo em seus filmes, cores vibrantes e peles pálidas contracenam com uma descomunal violência dos diálogos, uma imersão de desafetos e amores que explodem a tela. Para tal, Penélope Cruz emprestou sua inocência, vitalidade e agressividade em suas principais obras: “Volver” (Almodóvar, 2005), “Tudo Sobre minha Mãe” (Almodóvar, 1998), “Carne Trêmula” (Almodóvar, 1997).

Sobre Penélope Cruz, a variação de gêneros não atrapalhou a sensualidade. Woody Allen, que bebe de Bertoluci e Antonioni na mesma medida, levou Penélope para ternura e charme em suas obras. Uma descoberta nova, mas essencial. Woody Allen desvendou a palpitação de Penélope com Almodóvar e deu ritmo a seu olhar marcante. Em “Vicky, Cristina e Barcelona (2008)” e “Nero Fiddled (2012)”, o diretor rendeu-se à Penélope.

Como toda lista, algumas grandes personalidades ficaram de foram, mas uma boa medida do cinema cultural é revelada pela presença feminina.

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Uma resposta

  1. Entre grandes atrizes que foram injustiçadas pelo meu texto: Catherine Deneuve, Audrey Hepburn e Marilyn Moroe poderão ter textos próprios para repará-las. O cinema é sempre acompanhado ou feito com batom.

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